sábado, 31 de janeiro de 2015

POST-MORTEM


O poeta saiu à rua
Calçou a calçada nua
Percorreu a passos largos
Esqueceu o sono e os cansaços
Lembrou-se desses outros abraços
Bebidos a longos, longos tragos…
O poeta traz na mão esse seu último poema
O poeta traz na alma esses seus livros sonhados
Passa fome… não tem cama… perde-se nesses beirais
Como as andorinhas fazendo ninho
Nesses telhados alheios
Nesses abrigos constantes
Ontem e hoje… tal como dantes…
E o poeta remexe nos seus manuscritos mais íntimos
E o poeta cresce nesses paraísos de morte
Abandonado à sua sorte
Como quem a morte adivinha
E a sua musa e mulher
Que envelheceu a seu lado
Numa ou noutra rua qualquer
Dá-lhe o mote… canta-lhe o fado…
E o poeta deseja…
Uma e outra vez
De um e dois sermos três
Parindo esses versos que crescem
Nas bocas do mundo lá fora
Calando as invejas que descem
Pelos ouvidos dos outros
Fazendo a campa do poeta
Que morre pela caneta
Sempre que a morte deseja
E mais um poema nasce

Pelo amor que se enseja…

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